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2. Currículo: termo e conceito polissémicos 3. As propostas inovadoras de um currículo pós-moderno |
3. As propostas inovadoras de um currículo pós-moderno: Não
se divisarão novos rasgos, novos rumos para o currículo, rumos talvez
originados pela rejeição de um exagerado racionalismo moderno, positivista,
e pelas manifestações da crescente criatividade, tão aliados à informação
feita à escala planetária e a uma globalização imparável do mundo transcultural
e económico dos nossos dias? Por outras palavras, não cederá um currículo
da modernidade lugar a um currículo da pós-modernidade? Importa, antes de mais, procurar um sentido para alguns termos que contextualizam esta problemática, como: condição pós-moderna, pós-modernidade e pós-modernismo. Para FERNANDES (2000: 39), há autores que designam por pensamento pós-moderno uma perspectiva marcadamente filosófica, enquanto associam as designações pós-modernidade e condição pós-moderna sobretudo à condição social. Assim, “condição pós-moderna” e “pós-modernidade” seriam expressões complementares, amiúde utilizadas indistintamente. Já o pós-modernismo será considerado (idem: 40) uma componente e uma consequência da condição social pós-moderna, abrangendo um determinado conjunto de estilos, práticas e formas culturais no âmbito da literatura, artes plásticas, pintura e arquitectura. Considera FERNANDES (idem: 35) que é consensual o reconhecimento de que a origem da condição pós-moderna remonta aos anos sessenta, começando por ser uma reacção contra o racionalismo exacerbado a que o positivismo nos conduziu, vindo a transição pós-moderna a caracterizar-se, globalmente, pela rejeição da racionalidade positivista (duma razão que se apresenta como transcendente e universal) e, consequentemente, pela infirmação das distinções entre real e ideal, objectivo e subjectivo, realidade e aparência, facto e teoria, categorias filosóficas até aí inquestionáveis. Ora a pós-modernidade (ibidem) fará emergir “uma nova racionalidade que sublinha o papel do sujeito e da intersubjectividade e do contexto em que o conhecimento é produzido”. DOLL (1997:21), na
sua significativa obra - Currículo:
uma perspectiva pós-moderna –, fica, inicialmente,
hesitante à hora de emitir uma definição de pós-modernismo, pois acha
que é impossível darmos uma definição abrangente do mesmo, dado que o
movimento é novo demais para se definir a si mesmo e excessivamente variado
e dicotómico para que qualquer ramo seja representativo. Relata-nos que,
efectivamente, o pensamento pós-moderno invadiu as Artes, Humanidades,
Literatura, Administração, Matemática, Filosofia, Ciência, as Ciências
Sociais e a Teologia, tornando-se o termo uma palavra
‘da moda’ na cultura popular e difundido na nossa cultura, frequentemente
de maneiras contraditórias. Posteriormente, DOLL (1997: 77) emite a sua
opinião, que achamos esclarecedora e delimitadora deste conceito: O
Pós-modernismo propõe uma visão social, pessoal e intelectual
bem diferentes [do modernismo]. Sua visão intelectual baseia-se
não na certeza positivista e sim na dúvida pragmática, a dúvida que vem
de qualquer decisão que não se baseia em termos metanarrativos, mas na
experiência humana e na história local. A aceitação desta situação (perturbadora)
provavelmente nos faz sentir medo, mas também nos proporciona
um motivo para negociarmos melhor connosco, com nossos conceitos, nosso
meio ambiente, com os outros. A perda da certeza encoraja, se é que não
nos leva a dialogar e a comunicar-nos uns com os outros. E como conceber o currículo à luz da pós-modernidade? Não será linear nem rápida esta tarefa, pois, num momento de transição para uma nova era e numa sociedade que constantemente pressiona a escola para a mudança, há que precaver-nos, em primeiro lugar, contra a influência e persistência dos traços da modernidade e da racionalidade instrumental que lhe é inerente, como alerta FERNANDES (2000: 99). Na opinião da Autora, persiste e impede efectivamente a inovação curricular a prevalência de uma concepção curricular estática, cumulativa, sobreespecializada e uniforme. Por outro lado, “a
dificuldade num currículo pós-moderno, transformativo, é que não existe
nenhuma norma idealmente estabelecida, nenhum cânone que sirva como um
ponto de referência universal. Um sistema aberto, transformativo, está
por natureza sempre em fluxo, sempre em interacção e transacção (termo)dinâmica”
(DOLL, 1997: 189). Ora, apesar das dificuldades,
o que vai ser central ao conceito de currículo pós-moderno será a transformação
interactiva e de mente aberta de todos os intervenientes e recursos, como,
objectivamente traça o mesmo Autor (1997: 179):
Usar (ver) o conceito de transformação como central no currículo
– transformando assim os materiais, processos, ideias e participantes
do currículo – isso significa, na minha opinião, que os professores e
alunos precisam de ser livres, encorajados, obrigados
a desenvolver o seu próprio currículo numa interacção conjunta uns com
os outros. (...) Se o modernismo considerava a ‘mente’ como um espelho
metafórico para o que é, o pós-modernismo talvez a considere como um verbo transitivo para
o que pode ser”. Doll imagina
um currículo pós-moderno que permitirá que os poderes humanos de organização
e reorganização criativa da experiência sejam operativos num meio ambiente
que mantém uma tensão saudável entre a necessidade de encontrar o fechamento
e o desejo de explorar. Este sistema aberto permitirá que os alunos e
seus professores conversem e dialoguem para criar ordem e estruturas mais
complexas de matérias e ideias do que é possível nas estruturas do currículo
fechado de hoje. O papel do professor não será mais considerado causal,
e sim transformador. O currículo não será uma pista corrida, mas a própria
jornada. E a aprendizagem será uma aventura na criação do significado. Efectivamente, apoiando-se no construtivismo de Piaget e de Bruner, DOLL (ibidem)
considera que ninguém defenderia um currículo que tivesse sobras e redundâncias,
nem essas devem ser as qualidades principais de um aluno. Pelo contrário,
“o aluno, no curso do currículo, precisa conhecer o material estudado
suficientemente bem e ter confiança pessoal e suficiente para ser capaz
tanto de resolver, interpretar,
desempenhar e analisar o material apresentado quanto de brincar com este material de maneira imaginativa e subtil”.
Por sua vez, olhando ao papel do professor num
currículo pós-moderno, DOLL (1997: 183) aponta-lhe um sentido bem diferente
daquele que lhe era reservado no currículo tradicional. De facto, muitas
vezes, os professores (involuntária e não criticamente) achavam que o
controle era do tipo deus-ex-machina em vez do tipo prima
inter pares, mas é este último, “primeiro entre
iguais”, que define o papel do professor num currículo transformativo,
pós-moderno. Assegura o Autor, como primeiro
entre iguais, o papel do professor não se anula, mas reestrutura-se
e ressitua-se, pois de um papel externo à situação do aluno, torna-se
um só com esta situação. Mas num currículo transformativo, em que os
papéis do aluno e do professor são repensados, colocar-se-á, necessariamente,
o problema da sua qualidade, pela qual se possa verificar a sua diferenciação
de um currículo da modernidade ou tradicional. Para FERNANDES (2000: 103), será necessário repensar o significado
e papel do currículo, tomando consciência de que a complexidade da construção
e desenvolvimento do currículo ultrapassa em muito as quatro questões
tylerianas fundamentais a que o currículo deveria responder. E é precisamente
nesta perspectiva que DOLL traçou a teoria dos quatro R, critérios que constituirão,
num currículo pós-moderno, uma alternativa para
os princípios lógicos de TYLER (1949), abaixo explicitados. Assim se interroga
e responde DOLL (190-191): “Que critérios poderíamos usar para avaliar
a qualidade de um currículo pós-moderno – um currículo gerado, não pré-definido,
indeterminado, mas limitado...? Eu sugiro que os quatro
R de Riqueza, Recursão, Relações e Rigor poderiam servir
para este propósito”. E, a título de explicitação, deixaremos o essencial
de uma descrição adaptada de cada um dos critérios citados: Riqueza – Para que os alunos e professores
transformem e sejam transformados, um currículo
precisa ter a ‘quantidade certa’ de indeterminância,
anomalias, ineficiência, caos, desequilíbrio, dissipação, experiência
vivida. As problemáticas, perturbações e possibilidades inerentes
a um currículo são o que lhe dá riqueza e também seu senso de ser, seu
Dasein. Recursão – Derivada de recorrer, ocorrer
novamente, a recursão é normalmente associada à operação matemática da
iteração, capacidade humana de fazer com que os pensamentos (Fernandes,
2000, tradu-la como reflexão)
se conectem em circuitos. Na década de 1960, Bruner começou a definir
um currículo recursivo como o seu ‘currículo em espiral’. Em
um currículo que respeita, valoriza e usa a recursão, não existe nem início
ou final fixo. Conforme Dewey salientou, “cada final é um novo início,
cada início emerge de um final anterior”. Relações – O conceito de relações é
importante num currículo pós-moderno, transformativo, de duas maneiras:
de uma maneira pedagógica e
de uma maneira cultural. As primeiras, chamadas de relações
pedagógicas, referem-se às relações dentro do currículo – a matriz ou
a rede que o torna rico. As últimas poderiam ser chamadas de relações
culturais, referindo-se àquelas relações culturais ou cosmológicas que
estão fora do currículo, mas constituem uma grande matriz dentro da qual
o currículo está inserido. Ambas as relações são importantes porque complementares. Rigor – De certa maneira o mais importante
destes quatro critérios, o rigor evita que um currículo transformativo
caia ou num “relativismo extravagante” ou num solipsismo sentimental.
E neste actual conceito de rigor cabem elementos
de lógica escolástica, observação científica e precisão matemática. 1.
Que objectivos educacionais deve a escola procurar
alcançar? 2. Como seleccionar
experiências de aprendizagem úteis para a consecução desses objectivos?
3. Como podem ser organizadas as
experiências de aprendizagem para um ensino eficaz? 4. Como se pode avaliar a eficácia de experiências
de aprendizagem?
Para FERNANDES (2000: 144), será necessário perspectivar um sentido para a mudança, mas contando sempre que múltiplas serão as tensões desencadeadas pelos grandes dilemas curriculares: Presentes no nosso quotidiano
de professores e educadores, os dilemas curriculares da pós-modernidade
provocam tensões em várias dimensões do campo educativo: tensões entre
quantidade e qualidade, entre exclusão e inclusão, entre a tradicional
uniformidade curricular e a diversidade de culturas presentes na população
estudantil, entre a ideia de currículo como uma prescrição rígida e a
ideia de projecto curricular cuja gestão exige flexibilidade e sentido
de projecto, tensões entre fragmentação disciplinar e integração curricular,
tensões entre centralização e territorialização, entre individualismo
e diversas formas de participação e colaboração, tensões entre burocracia
e profissionalismo. Primeiro R: Riqueza – Para que os alunos e professores transformem e sejam transformados, um currículo precisa ter a ‘quantidade certa’ de indeterminância, anomalias, ineficiência, caos, desequilíbrio, dissipação, experiência vivida. Não poderemos encontrar a mesma posição na lógica do Princípio 2., de Tyler, quando se pergunta sobre “como seleccionar experiências de aprendizagem úteis para a consecução dos objectivos da escola”? Efectivamente, no leque imenso de experiências de aprendizagem dos alunos, por eles próprios vividas, nem tudo é perfeitamente organizado, pelo que, se não existir uma adequada selecção, o anómalo e o caos serão visíveis a qualquer actor educativo. Não notamos, por conseguinte, a inovação total neste domínio, mas mais se nos impõe uma perspectiva de continuidade entre as duas visões. Segundo R: Recursão – A recursão é normalmente associada à operação matemática da iteração, capacidade humana de fazer com que os pensamentos, ou reflexão, se conectem em circuitos, como se se tratasse de um ‘currículo em espiral’. Não existe nem início ou final fixo. O que nos diz Tyler com o seu 4.º princípio (como se pode avaliar se os objectivos estão a ser alcançados)? Não propõe Tyler que a avaliação, que se pretende reflexiva, nunca poderá ser pontualizada, mas sim um processo diacrónico, que se estenda mesmo para além da finalização dos cursos de formação? E não reverte o processo avaliativo, espiraladamente, numa melhoria quer da aprendizagem, quer das determinações administrativas e docentes sobre a qualidade do ensino? Assim, também neste ponto, mais nos parece assistirmos a uma continuidade do que a uma perspectiva de rectificação inovadora. Terceiro R: Relações – O conceito de relações é importante num currículo pós-moderno, transformativo, de duas maneiras complementares: de uma maneira pedagógica e de uma maneira cultural. As primeiras, chamadas de relações pedagógicas, referem-se às relações dentro do currículo – a matriz ou a rede que o torna rico. As últimas poderiam ser chamadas de relações culturais, que estão fora do currículo, mas constituem uma grande matriz dentro da qual o currículo está inserido. Não se nos afigura que a vivência do currículo, segundo a lógica tradicional, traçada por Tyler, não tenha em conta as duas dimensões: a pedagógico-lectiva, propriamente designada curricular, e a cultural, ora apelidada de extra-curricular, ora de complementar ao currículo, ou ainda de “escola cultural”. Afinal, o Princípio 3., de Tyler, propõe-nos, abertamente, o problema de como podem ser organizadas as experiências de aprendizagem para um ensino eficaz. E, quer a nível interno, quer externo, entra por vários critérios complementares para esse efeito: a) continuidade: reiteração vertical dos elementos curriculares importantes; b) sequência: cada experiência sucessiva parte da anterior, aprofundando os assuntos envolvidos; c) integração: relação horizontal das experiências curriculares. Não vemos que, utilizando estes critérios, não possamos dar cumprimento às relações curriculares de natureza pedagógica e cultural. Por conseguinte, a visão pós-moderna de currículo estabelece uma continuidade com a visão tyleriana, ou seja, a da lógica tradicional. Por
fim, analisemos o quarto R: Rigor: Como o mais importante
destes quatro R, o rigor evita que um currículo transformativo
caia ou num “relativismo extravagante” ou num solipsismo sentimental.
O Princípio 1., de Tyler (que objectivos educacionais deve
a escola procurar alcançar?), e até numa perspectiva de exagerada
quantificação, procura trazer para dentro da escola a objectividade, a
fuga a posturas emotivas e a inconsistências de criatividades infundamentadas.
Aliás, nos Princípios de TYLER
(1949), e à cabeça de todo o processo de ensino-aprendizagem, adverte-se
que, só com base em objectivos rigorosos, podemos constituir os critérios
de selecção de materiais, conteúdos, estratégias de ensino e de preparação
de testes/exames. Ou seja, o rigor esteve sempre presente na lógica tradicional
do currículo. Não vemos, pois, uma demarcação absoluta desta, particularmente
no que se refere à intencionalidade do quarto
R, de Doll. Numa palavra, como poderemos rotundamente admitir que os quatro R substituirão as quatro célebres interrogações ou princípios de Tyler? Se, à primeira vista, somos levados a aceitar a inovação de um currículo da pós-modernidade, analisadas as convergências possíveis, até verificamos que mais se trata de um continuum entre duas formas diferentes de projectar a mesma realidade, mas que, em boa verdade, não se substituem, mas se complementam. Afinal, se, curricularmente falando, temos raízes que se estendem à época clássico-aristotélica, facto que nos alerta para o legado educativo que a humanidade veio construindo e para a nossa responsabilidade em continuá-lo e transformá-lo, não fazemos mais que apanhar o “processo em andamento”, como refere GIMENO-SACRISTÁN (1992: 77). *** Para concluirmos a série de concepções curriculares a que vimos aludindo, e lembrando que nenhuma delas poderá assumir contornos de absoluticidade ou dogmatismo, gostaríamos de lhes fazer uma observação abrangente, através das célebres palavras de STENHOUSE (1984: 29-30): -“Um currículo é quase como uma receita na arte culinária. Pode ser criticada por motivos nutricionais ou gastronómicos – alimenta os estudantes e sabe bem? – e pode ser criticada por motivos práticos – seria impossível preparar uma comida à base de línguas de cotovia. (...). Dentro de certos limites, uma receita pode variar-se de acordo com o gosto. E assim também sucede com um currículo”. Julgamos que a analogia gastronómica é deveras significativa. |
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