Resumo
Introdução
Revisitando um pouco da história da informática educativa no Brasil
O professor e as novas tecnologias
Referências

O professor e as novas tecnologias

Ao deparar-se com a revolução digital que atinge todos os grupamentos sociais de maneira espantosa, a prática pedagógica da escola não está mais restrita ao professor e ao aluno. Essa prática lança um desafio aos sujeitos do processo de ensinar e aprender (professor) e aprender e ensinar (aluno), o de romper com práticas mecanicistas, para que as novas práticas possibilitem o apreender e construir conhecimentos.

A escola é uma das organizações sociais que mais vem sendo questionada sobre como fazer uso dos recursos tecnológicos na sua proposta de educar.

De maneira geral, os educadores vêm mobilizando esforços para melhor compreender o significado e as conseqüências do uso das novas tecnologias no ambiente escolar. Para isso, muitos estudos e pesquisas têm refletido sobre essa prática pedagógica que está sendo exigida da escola e que vem desenhando uma relação professor/aluno/conteúdo, ampliada do processo de aprender a aprender. A essa relação, como vimos anteriormente, somam-se as novas tecnologias da informação e comunicação (TICs).

A escola para dar conta desse processo, ampliou sua tarefa. Suas discussões e questionamentos voltam-se para a formação continuada do professor e para o uso das TICs. Nessa perspectiva, a equipe da escola deverá:

- criar condições para que os professores possam se apropriar do uso dos novos instrumentos, tendo uma visão crítica da máquina;
- discutir com os professores a melhor forma de utilizar os recursos disponíveis na escola;
- construir com o grupo de professores propostas para o uso integrado dos recursos tecnológicos;
- avaliar o processo como forma de (re)planejar as ações desenvolvidas na prática pedagógica.

Fica claro que não basta informatizar a escola, é fundamental com base em trabalho coletivo, repensar o projeto pedagógico da escola, realizando uma reflexão sobre as finalidades da escola, explicitando seu papel social, bem como quais ações deverão ser empreendidas pela equipe da escola (diretor, pedagogos, professores, funcionários, pais e alunos) frente às TICs. Esse processo deverá envolver o conhecimento sobre a sociedade, a educação, a escola, o aluno numa dimensão ideológica - explicativa definida com base em fundamento epistemológico, fundamento sócio-político, fundamento antropológico, fundamento psicológico e fundamento pedagógico. O refletir sobre estes fundamentos que consubstanciam a proposta da escola vai explicitar a concepção de seus atores sobre sociedade, educação e escola que busca a emancipação humana.

Ao incluir as TICs como parte da proposta da escola, é preciso ter como pressuposto que a educação é um processo de constituição histórica do sujeito, por meio do qual ele torna-se capaz de construir seu próprio projeto de vida e de sociedade, tanto individualmente como coletivamente. A construção de um projeto pedagógico e do uso das TICs pela escola vem no contexto educacional gerando muitas expectativas, principalmente, no que se refere à melhoria da qualidade dos serviços prestados pela escola, ou seja, o compromisso com a formação de homens e de mulheres capazes de aprender a aprender, de saber pensar para agir e inovar.

Para inovar em educação usando às TICs, é preciso questionar a relação tão comum entre educar e ver televisão, entre aprender e usar o computador, entre informação obtida por meio da internet e produção do conhecimento, entre ensinar e formar.

As figuras centrais do processo educativo são o/a aluno e o/a professor/a e não as TICs, as ferramentas eletrônicas. Não é função do/a professor/a, hoje a simples transmissão de conhecimento, uma vez que agora ela pode ser realizada por meios eletrônicos. Assim fica ainda mais evidente que o papel do/a professor/a, continua sendo o de incentivar a aprendizagem e o pensamento, de ser um/a mediador/a do processo de aprender, o de ser responsável pelo sucesso do aluno/a. Para Lévy (1999, p. 171),

O professor torna-se um animador da inteligência coletiva dos grupos que estão ao seu encargo. Sua atividade será centrada no acompanhamento e na gestão das aprendizagens: incitamento à troca de saberes, a mediação relacional e simbólica, a pilotagem personalizada dos percursos de aprendizagem etc.

Por isso no âmbito da escola, segundo Demo (1998), a educação precisa ser um processo emancipatório e deixar de ser domesticador. Outro aspecto a considerar é o de que a relação professor-aluno, é sempre uma relação de poder, pois toda relação social é constituída de poder. No entanto, o relacionamento ancorado no confronto[2] de sujeitos é diferente do relacionamento pautado na subalternidade de objetos.
Nessa relação, não pode faltar o esforço de desejar buscar a participação do/a aluno/a, a presença do/a professor/a e das TICs, pois estas contribuem para a construção de conhecimento. A relação professor/aluno/conteúdo/tecnologia precisa estar fundamentada em teorias que tenham em mente a emancipação humana, além de ter clareza que as pessoas geralmente (re)constroem conhecimento com base no que já conhecem, e assim podem intervir na realidade que as cerca.

Numa aprendizagem colaborativa fazendo uso do computador, professores e alunos aprendem, fazendo uso do processo dialético de aprender. Seus pontos de partida são diferenciados, mas pelas problematizações criadas o ponto de chegada será de aprendizagem para ambos. Nesse processo, o professor e não só o aluno, tem "ganhos" em relação à sua formação, pois ao fazer uso constante de recursos materiais e informacionais atualiza seu conhecimento "disciplinar" e constrói sua práxis, gerenciando sua formação continuada. Pois, como diz Lévy (1993, p. 7),

Novas maneiras de pensar e conviver estão sendo elaboradas no mundo das telecomunicações e da informática. As relações entre os homens, o trabalho, a própria inteligência dependem na verdade, da metamorfose dos dispositivos informacionais de todos os tipos. [...] Não se pode mais conceber a pesquisa científica sem uma aparelhagem complexa que redistribui as antigas divisões entre experiência e teoria.

Frente às inovações tecnológicas, mais especificamente o computador na escola, nem todos os profissionais da educação se posicionam de maneira similar. Sobre esse aspecto, Quartierro e Bianchetti (1999, p. 247-248), explicitam que pelas suas observações, leituras e reflexões os professores podem ser classificados em quatro grupos:

- No primeiro grupo estão os apologetas, laudatários ou deslumbrados com a capacidade dos indivíduos objetivarem sua inteligência nas máquinas. Para eles só existem pontos positivos nas novas tecnologias, além de estarem sempre a par da última inovação tecnológica, a consideram responsável pela melhoria de vida da população.
- Os apocalípticos formam um segundo grupo, que só vêem coisas ruins na tecnologias. Para eles, a televisão é responsável pela desagregação familiar, o telefone impede a aproximação física das pessoas, a máquina de calcular limita o raciocínio, o computador está substituindo e colocando o homem a seu serviço, etc.
- Para os indiferentes, acomodados ou ensimesmados que fazem parte do terceiro grupo, essas tecnologias não fazem parte de seu dia-a-dia, pois já estão velhos demais para assimilar essa nova cultura. Ficam assim alheios às transformações que estão ocorrendo.
- O quarto grupo é formado por educadores que procuram posicionar-se e apreender as novas tecnologias como elas são: criação humana, carregadas de ideologias, capazes de contribuir para facilitar a vida, mas quando indevidamente usadas, favorecem a submissão das pessoas ao poder instituído de quem constrói, domina e possui.

Nesse quarto grupo estão os professores que reconhecem o desafio de uma educação que forme indivíduos capazes de pensar por si mesmos, de enfrentar as contradições da sociedade e de utilizar as TICs como uma das ferramentas para compreendê-la e transformá-la.

Sendo a escola o espaço que trabalha com o conhecimento sistematizado pelos homens, o qual foi gerado com base em diferentes informações, esse conhecimento, fruto de experimentos, estudos, pesquisas em variadas fontes inclusive a digital, gera novas informações. O professor no espaço da escola, faz a mediação do processo, possibilitando que o conhecimento sistematizado seja transformado em saber escolar. Para isso, os sujeitos do processo, professor e aluno desenvolvem um esforço de questionamento e fazem uso das TICs.

Há, no entanto uma questão que precisa ser levada em conta nessa relação com as TICs, como diz Gandin (1999), "se uma determinada prática é ruim sem os computadores [TICs], ela não vai melhorar com eles e pode ficar ainda pior."

Usar as TICs para apresentar ou transmitir as informações é como explicita Demo (1995), a tendência moderna, uma vez que a "ditática transmissiva tende a migrar para os meios modernos eletrônicos de comunicação" (p. 28), mas no processo de construção de conhecimento está o professor que tem aí uma função insubstituível. No entanto, como afirma o autor, o aprimoramento do manejo das TICs pelo professor possibilita a esse, "aprimorar a transmissão de conhecimento, socializar de modo mais amplo e atraente o saber disponível e sobretudo, economizar tempo e oportunidade para construir." (p.55).

É como diz Sommer (2001, p.109-110), sobre o advento das TICs sobre o trabalho dos/as professores/as há muito a ser discutido e problematizado, mas o fato é que: para nós, professores e professoras, que aprendemos a ensinar a partir da realidade dos/das estudantes, uma das questões que se colocam é se é possível entender o mundo que estamos gestando sem o exame das novas prática produzidas pelas novas tecnologias.

A relação professor/aluno/conteúdo/TICs está intimamente relacionada aos pilares do conhecimento apresentados no Relatório Delors (1998) e às teorias da educação que reconhecem ser estes pilares aprendizagens indispensáveis a uma educação integral do ser humano, como: saber, saber fazer, saber conviver e saber ser. A transrelação que liga os quatro pilares da aprendizagem mostra que a educação não pode estar voltada para apenas à um dos componentes do ser humano, mas para sua totalidade. Os eixos norteadores dessa proposta de educação apontam para uma formação que enfatize entre outros aspectos a formação e a autoformação.

A reflexão apresentada procura ser o início do exercício para compreender a complexidade e singularidade das relações numa prática educativa que envolve as TICs. Nos espaços educativos a construção de conhecimento, o ensinar e aprender, ocorre quando o aluno/a e o professor/a se engajam numa comunidade de aprendizagem, num processo de diálogo, aceitando e questionando, recusando e assumindo os desafios, ou seja, alunos/as, professores/as, tecnologias, constituem o conjunto que procura entender ou encontrar a forma de produzir conhecimento e de garantir a apreensão e o aproveitamento da sua produção por parte de todos os que compomos a atual dinâmica sociedade.

[2] Confronto, significa um tipo dialético de relacionamento dinâmico e marcado por pretenções emancipatórias (DEMO, 1998).