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Resumo
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O
professor e as novas tecnologias
Ao
deparar-se com a revolução digital que atinge todos os grupamentos
sociais de maneira espantosa, a prática pedagógica da escola
não está mais restrita ao professor e ao aluno. Essa prática
lança um desafio aos sujeitos do processo de ensinar e aprender
(professor) e aprender e ensinar (aluno), o de romper com práticas
mecanicistas, para que as novas práticas possibilitem o apreender
e construir conhecimentos.
A escola é uma das organizações sociais que mais
vem sendo questionada sobre como fazer uso dos recursos tecnológicos
na sua proposta de educar.
De maneira geral, os educadores vêm mobilizando esforços
para melhor compreender o significado e as conseqüências do
uso das novas tecnologias no ambiente escolar. Para isso, muitos estudos
e pesquisas têm refletido sobre essa prática pedagógica
que está sendo exigida da escola e que vem desenhando uma relação
professor/aluno/conteúdo, ampliada do processo de aprender a aprender.
A essa relação, como vimos anteriormente, somam-se as novas
tecnologias da informação e comunicação (TICs).
A escola para dar conta desse processo, ampliou sua tarefa. Suas discussões
e questionamentos voltam-se para a formação continuada do
professor e para o uso das TICs. Nessa perspectiva, a equipe da escola
deverá:
- criar condições para que os professores possam se apropriar
do uso dos novos instrumentos, tendo uma visão crítica da
máquina;
- discutir com os professores a melhor forma de utilizar os recursos disponíveis
na escola;
- construir com o grupo de professores propostas para o uso integrado
dos recursos tecnológicos;
- avaliar o processo como forma de (re)planejar as ações
desenvolvidas na prática pedagógica.
Fica claro que não basta informatizar a escola, é fundamental
com base em trabalho coletivo, repensar o projeto pedagógico da
escola, realizando uma reflexão sobre as finalidades da escola,
explicitando seu papel social, bem como quais ações deverão
ser empreendidas pela equipe da escola (diretor, pedagogos, professores,
funcionários, pais e alunos) frente às TICs. Esse processo
deverá envolver o conhecimento sobre a sociedade, a educação,
a escola, o aluno numa dimensão ideológica - explicativa
definida com base em fundamento epistemológico, fundamento sócio-político,
fundamento antropológico, fundamento psicológico e fundamento
pedagógico. O refletir sobre estes fundamentos que consubstanciam
a proposta da escola vai explicitar a concepção de seus
atores sobre sociedade, educação e escola que busca a emancipação
humana.
Ao incluir as TICs como parte da proposta da escola, é preciso
ter como pressuposto que a educação é um processo
de constituição histórica do sujeito, por meio do
qual ele torna-se capaz de construir seu próprio projeto de vida
e de sociedade, tanto individualmente como coletivamente. A construção
de um projeto pedagógico e do uso das TICs pela escola vem no contexto
educacional gerando muitas expectativas, principalmente, no que se refere
à melhoria da qualidade dos serviços prestados pela escola,
ou seja, o compromisso com a formação de homens e de mulheres
capazes de aprender a aprender, de saber pensar para agir e inovar.
Para inovar em educação usando às TICs, é
preciso questionar a relação tão comum entre educar
e ver televisão, entre aprender e usar o computador, entre informação
obtida por meio da internet e produção do conhecimento,
entre ensinar e formar.
As figuras centrais do processo educativo são o/a aluno e o/a professor/a
e não as TICs, as ferramentas eletrônicas. Não é
função do/a professor/a, hoje a simples transmissão
de conhecimento, uma vez que agora ela pode ser realizada por meios eletrônicos.
Assim fica ainda mais evidente que o papel do/a professor/a, continua
sendo o de incentivar a aprendizagem e o pensamento, de ser um/a mediador/a
do processo de aprender, o de ser responsável pelo sucesso do aluno/a.
Para Lévy (1999, p. 171),
O professor torna-se um animador da inteligência coletiva dos grupos
que estão ao seu encargo. Sua atividade será centrada no
acompanhamento e na gestão das aprendizagens: incitamento à
troca de saberes, a mediação relacional e simbólica,
a pilotagem personalizada dos percursos de aprendizagem etc.
Por isso no âmbito da escola, segundo Demo (1998), a educação
precisa ser um processo emancipatório e deixar de ser domesticador.
Outro aspecto a considerar é o de que a relação professor-aluno,
é sempre uma relação de poder, pois toda relação
social é constituída de poder. No entanto, o relacionamento
ancorado no confronto[2] de sujeitos é diferente
do relacionamento pautado na subalternidade de objetos.
Nessa relação, não pode faltar o esforço de
desejar buscar a participação do/a aluno/a, a presença
do/a professor/a e das TICs, pois estas contribuem para a construção
de conhecimento. A relação professor/aluno/conteúdo/tecnologia
precisa estar fundamentada em teorias que tenham em mente a emancipação
humana, além de ter clareza que as pessoas geralmente (re)constroem
conhecimento com base no que já conhecem, e assim podem intervir
na realidade que as cerca.
Numa aprendizagem colaborativa fazendo uso do computador, professores
e alunos aprendem, fazendo uso do processo dialético de aprender.
Seus pontos de partida são diferenciados, mas pelas problematizações
criadas o ponto de chegada será de aprendizagem para ambos. Nesse
processo, o professor e não só o aluno, tem "ganhos"
em relação à sua formação, pois ao
fazer uso constante de recursos materiais e informacionais atualiza seu
conhecimento "disciplinar" e constrói sua práxis,
gerenciando sua formação continuada. Pois, como diz Lévy
(1993, p. 7),
Novas maneiras de pensar e conviver estão sendo elaboradas no mundo
das telecomunicações e da informática. As relações
entre os homens, o trabalho, a própria inteligência dependem
na verdade, da metamorfose dos dispositivos informacionais de todos os
tipos. [...] Não se pode mais conceber a pesquisa científica
sem uma aparelhagem complexa que redistribui as antigas divisões
entre experiência e teoria.
Frente às inovações tecnológicas, mais especificamente
o computador na escola, nem todos os profissionais da educação
se posicionam de maneira similar. Sobre esse aspecto, Quartierro e Bianchetti
(1999, p. 247-248), explicitam que pelas suas observações,
leituras e reflexões os professores podem ser classificados em
quatro grupos:
- No primeiro grupo estão os apologetas, laudatários ou
deslumbrados com a capacidade dos indivíduos objetivarem sua inteligência
nas máquinas. Para eles só existem pontos positivos nas
novas tecnologias, além de estarem sempre a par da última
inovação tecnológica, a consideram responsável
pela melhoria de vida da população.
- Os apocalípticos formam um segundo grupo, que só vêem
coisas ruins na tecnologias. Para eles, a televisão é responsável
pela desagregação familiar, o telefone impede a aproximação
física das pessoas, a máquina de calcular limita o raciocínio,
o computador está substituindo e colocando o homem a seu serviço,
etc.
- Para os indiferentes, acomodados ou ensimesmados que fazem parte do
terceiro grupo, essas tecnologias não fazem parte de seu dia-a-dia,
pois já estão velhos demais para assimilar essa nova cultura.
Ficam assim alheios às transformações que estão
ocorrendo.
- O quarto grupo é formado por educadores que procuram posicionar-se
e apreender as novas tecnologias como elas são: criação
humana, carregadas de ideologias, capazes de contribuir para facilitar
a vida, mas quando indevidamente usadas, favorecem a submissão
das pessoas ao poder instituído de quem constrói, domina
e possui.
Nesse quarto grupo estão os professores que reconhecem o desafio
de uma educação que forme indivíduos capazes de pensar
por si mesmos, de enfrentar as contradições da sociedade
e de utilizar as TICs como uma das ferramentas para compreendê-la
e transformá-la.
Sendo a escola o espaço que trabalha com o conhecimento sistematizado
pelos homens, o qual foi gerado com base em diferentes informações,
esse conhecimento, fruto de experimentos, estudos, pesquisas em variadas
fontes inclusive a digital, gera novas informações. O professor
no espaço da escola, faz a mediação do processo,
possibilitando que o conhecimento sistematizado seja transformado em saber
escolar. Para isso, os sujeitos do processo, professor e aluno desenvolvem
um esforço de questionamento e fazem uso das TICs.
Há, no entanto uma questão que precisa ser levada em conta
nessa relação com as TICs, como diz Gandin (1999), "se
uma determinada prática é ruim sem os computadores [TICs],
ela não vai melhorar com eles e pode ficar ainda pior."
Usar as TICs para apresentar ou transmitir as informações
é como explicita Demo (1995), a tendência moderna, uma vez
que a "ditática transmissiva tende a migrar para os meios
modernos eletrônicos de comunicação" (p. 28),
mas no processo de construção de conhecimento está
o professor que tem aí uma função insubstituível.
No entanto, como afirma o autor, o aprimoramento do manejo das TICs pelo
professor possibilita a esse, "aprimorar a transmissão de
conhecimento, socializar de modo mais amplo e atraente o saber disponível
e sobretudo, economizar tempo e oportunidade para construir." (p.55).
É como diz Sommer (2001, p.109-110), sobre o advento das TICs sobre
o trabalho dos/as professores/as há muito a ser discutido e problematizado,
mas o fato é que: para nós, professores e professoras, que
aprendemos a ensinar a partir da realidade dos/das estudantes, uma das
questões que se colocam é se é possível entender
o mundo que estamos gestando sem o exame das novas prática produzidas
pelas novas tecnologias.
A relação professor/aluno/conteúdo/TICs está
intimamente relacionada aos pilares do conhecimento apresentados no Relatório
Delors (1998) e às teorias da educação que reconhecem
ser estes pilares aprendizagens indispensáveis a uma educação
integral do ser humano, como: saber, saber fazer, saber conviver e saber
ser. A transrelação que liga os quatro pilares da aprendizagem
mostra que a educação não pode estar voltada para
apenas à um dos componentes do ser humano, mas para sua totalidade.
Os eixos norteadores dessa proposta de educação apontam
para uma formação que enfatize entre outros aspectos a formação
e a autoformação.
A reflexão apresentada procura ser o início do exercício
para compreender a complexidade e singularidade das relações
numa prática educativa que envolve as TICs. Nos espaços
educativos a construção de conhecimento, o ensinar e aprender,
ocorre quando o aluno/a e o professor/a se engajam numa comunidade de
aprendizagem, num processo de diálogo, aceitando e questionando,
recusando e assumindo os desafios, ou seja, alunos/as, professores/as,
tecnologias, constituem o conjunto que procura entender ou encontrar a
forma de produzir conhecimento e de garantir a apreensão e o aproveitamento
da sua produção por parte de todos os que compomos a atual
dinâmica sociedade.
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